Estive em Belém acompanhando a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas. Vi líderes de quase 200 países, cientistas e representantes da sociedade civil reunidos num mesmo território.
O encontro mudou o tom: o debate deixou de ser estatística e virou experiência no dia a dia da floresta. Do calor extremo às cheias e estiagens, entendi como o clima molda vidas e decisões.
Esse evento irradiou ações para governos, empresas e comunidades. Decisões ali influenciam uso da terra, financiamento climático e defesa da floresta.
Traço um caminho prático: mostrar vozes da floresta, dados e propostas que ajudem o Brasil a liderar pelo resultado. A centralidade da região reposiciona o país no tabuleiro global e define parte do futuro do planeta.
Por que a COP30 na Amazônia redefine a agenda climática do Brasil
Levar a cúpula ao Pará fez a agenda climática sair dos palcos e entrar na floresta. Pela primeira vez, a conferência das nações unidas aconteceu no bioma, com quase 200 países, cientistas e sociedade civil presentes.
O ineditismo mudou prioridades. Logística, saúde e educação viraram peças centrais das soluções. Vi autoridades entenderem que segurança alimentar e cadeias produtivas influenciam metas ambientais.
Da diplomacia ao terreno: impactos práticos
Delegações visitaram comunidades e laboratórios locais. Isso aproximou diplomacia e execução, encurtando o caminho entre anúncio e projeto.
- Agenda pública e privada com foco em desmatamento zero e restauração.
- Compromissos empresariais ligados a cadeias do açaí e do cacau.
- Pressão por orçamento, monitoramento e métricas territoriais.
| Impacto | Setor | Mudança exigida |
|---|---|---|
| Implementação local | Governos locais | Coordenação interministerial |
| Investimento privado | Indústria e varejo | Contratos vinculados a compras sustentáveis |
| Transparência | Sociedade e fiscalização | Cronogramas e métricas territoriais |
Em novembro a percepção de distância entre decisão global e vida local ruiu. O futuro da ação climática depende agora da capacidade de articular municípios, estados e governo federal para traduzir essas mudanças em resultados.
COP30 na Amazônia: fatos essenciais do evento e do contexto regional
Vi em Belém uma convergência inédita entre diplomacia, ciência e mobilização popular.
Conferência das Nações Unidas em Belém: líderes, sociedade civil e compromissos
O encontro reuniu líderes de quase 200 países, cientistas e sociedade civil em plenárias e visitas de campo.
Em Belém ficou claro: a participação local transformou discursos em metas com prazos e indicadores.
O evento trouxe exemplos de financiamento que remuneram resultados e redesenham a governança.

As “Cinco Amazônias”: heterogeneidade que orienta políticas públicas
O relatório “Fatos da Amazônia 2025” segmenta a região em cinco zonas: florestal (39%), sob pressão (29%), desmatada (11%), não florestal/cerrado (21%) e urbana, que concentra 76% da população.
São 5 milhões de km² e 26,7 milhões de pessoas em 773 municípios. Isso exige políticas específicas, não soluções únicas.
- Metas diferenciadas para áreas sob pressão e áreas já desmatadas.
- Foco em logística verde, conectividade e assistência técnica local.
- Priorizar fiscalização, restauração e bioeconomia onde a zona indicar.
| Zona | % da área | Prioridade | Exemplo de ação |
|---|---|---|---|
| Florestal | 39% | Conservação | Pagamentos por serviços ambientais |
| Sob pressão | 29% | Prevenção | Monitoramento e apoio a cadeias sustentáveis |
| Desmatada | 11% | Recuperação | Restauração produtiva com bioeconomia |
| Não florestal / Cerrado | 21% | Gestão adaptada | Práticas agrícolas de baixo carbono |
O planeta observa a região como barômetro de credibilidade. Entregar resultados aqui redefine a narrativa global do Brasil.
Panorama em números: território, população, clima e economia da região
Os números revelam o tamanho do desafio: 59% do território do Brasil — cerca de 5 milhões km² — abriga 26,7 milhões de habitantes em 773 municípios.

Território e população
Essa escala amplia a complexidade administrativa. Municípios urbanos e rurais exigem métricas diferentes para medir sucesso.
Desmatamento e mudanças climáticas
O passivo acumulado chega a 857 mil km² até 2024, o que representa 20,6% da cobertura original. Maranhão, Mato Grosso e Pará concentram perdas expressivas.
Queimadas em alta
Em 2024 houve 192,7 mil focos de calor — 52% acima de 2023. Mato Grosso e Roraima lideraram altas sensíveis. Vi na prática efeitos imediatos no clima local e na saúde pública.
Emissões
Em 2023, a região emitiu 1,1 bilhão de tCO₂; as emissões líquidas foram 602 milhões tCO₂, cerca de 36% do total nacional. Reduzir aqui muda a fotografia do inventário brasileiro.
Bioeconomia e dimensões sociais
A bioeconomia já gera receita real: açaí (R$ 8,9 bi), cacau (R$ 2,1 bi) e castanha (R$ 172 mi).
Mas a crise social persiste: cerca de 10 milhões em pobreza (36% da população) e homicídios de 32,9 por 100 mil em 2023. Políticas integradas de segurança, crédito e compras públicas fazem diferença.
- Minha recomendação: combinar prevenção, restauração produtiva e compra pública para ampliar renda e reduzir riscos.
Vozes da floresta e sociedade civil: a Carta da Amazônia na COP30
A escuta ativa revelou prioridades que políticas tradicionais ignoram. Durante a Jornada, oficinas, encontros e paradas do Banzeiro da Esperança reuniram ribeirinhos, povos indígenas, quilombolas e juventudes.
A Carta nasceu desses diálogos. O documento sistematiza propostas e compromissos para enfrentar a crise climática a partir dos territórios, com saberes tradicionais e justiça socioambiental.
Escuta ativa e exemplos práticos
- Participei de rodas onde aprendi mais ouvindo do que falando.
- Vi jovens mapeando nascentes e mulheres liderando cooperativas de açaí.
- Guardas indígenas mostraram como monitoram invasões em tempo real.
Propostas e indicadores locais
| Tema | Pedido | Indicador proposto | Exemplo local |
|---|---|---|---|
| Proteção territorial | Reconhecimento e demarcação | Km² protegido por ano | Guardas comunitários ativos |
| Financiamento | Recursos diretos a comunidades | Repasses locais por projeto | Fundos para cadeias sustentáveis |
| Restauração | Restauração produtiva | Hectares recuperados | Projetos de bioeconomia |
Um chamado ético
Justiça socioambiental não é slogan; é critério de política. A sociedade reconhece seu protagonismo quando seus saberes entram em conselhos, fundos e programas. Levar essas vozes aos palcos internacionais é condição para ação legítima e eficaz pela floresta e pela sociedade civil.
Ciência amazônica em evidência: universidades e o Cisam no enfrentamento da crise
Passei dias nos laboratórios e vi como pesquisa e saberes locais se articulam em soluções práticas.
UFPA e 13 federais: mais de 70% da produção científica na Amazônia Legal
A Universidade Federal do Pará integra um conjunto de 13 universidades federais que respondem por mais de 70% da produção científica regional.
Isso cria massa crítica para formar técnicos, professores e empreendedores da bioeconomia.
Cisam: integração de saberes para políticas e soluções locais
Em 2023 foi criado o Centro Integrado da Sociobiodiversidade Amazônica (Cisam) com um objetivo claro: articular dados, instituições e comunidades.
O Censo 2022 do IBGE mostra que a região concentra mais de 51% da população indígena do país e mais de 30% dos que se autodeclaram quilombolas. Isso exige metodologias interculturais.
- Caminhei pelos campi da UFPA e vi laboratórios que unem ciência de ponta e saber tradicional — assim se protege a floresta e se cria tecnologia apropriada.
- Casos práticos: sistemas agroflorestais com cacau nativo, melhoramento de açaí com rastreabilidade genética e manejo comunitário inovador.
- A integração universidade-comunidade acelera alertas precoces de queimadas, monitoramento de águas e valorização de cadeias de valor.
- Transformar conhecimento em serviço público: dados abertos, mapas de risco e formação contínua para prefeituras.
Conclusão breve: a ciência local é peça chave para traduzir pesquisa em políticas e negócios que respondam às reais mudanças no território.
Impactos nas políticas e na economia verde pós-evento
Depois das conversas em plenária, o teste real será traduzir promessas em políticas públicas mensuráveis. Eu vi compromissos ganharem texto de lei e linhas orçamentárias em poucos meses.
Compromissos e objetivos: do anúncio às políticas implementáveis
Objetivo: reduzir emissões líquidas e aumentar renda local simultaneamente. Em 2023 a bioeconomia já mostrou força — açaí (R$ 8,9 bi), cacau (R$ 2,1 bi), café canephora (R$ 2,5 bi), banana (R$ 2,4 bi) e castanha (R$ 172 mi).
- Metas de desmatamento ilegal zero atreladas a pagamento por resultado e crédito rural verde.
- Fundos estaduais lançando editais para restauração e seguros paramétricos contra incêndios.
- Monitoramento público com dados abertos para cobrar entrega.
Bioeconomia, sociedade e floresta: oportunidades para a região e para o Brasil
Proponho políticas que usem compras públicas, selo e rastreabilidade para escalar cadeias locais. Isso eleva preço e cria empregos.
| Medida | Impacto | Exemplo | Métrica |
|---|---|---|---|
| Pagamento por resultado | Redução de desmatamento | Programa estadual ligado a hectares evitados | Ha/ano protegido |
| Crédito rural verde | Adesão à produção sustentável | Linhas com juros menores e assistência técnica | Propriedades financiadas |
| Compras públicas | Mercado para produtos sociobiodiversos | Merendas escolares com açaí e cacau locais | R$ comprados/ano |
| Transparência | Confiança e cobrança social | Plataforma de dados abertos | Indicadores públicos atualizados |
Conclusão
Em novembro ficou claro: a ambição se mede na prática, não no discurso.
Enfrentar a crise climática exige políticas que unam ciência local, financiamento justo e protagonismo das comunidades.
A Carta da Amazônia e o trabalho das universidades, pelo Cisam, oferecem caminhos concretos.
A população precisa ver impacto no prato, na escola e no posto de saúde. Essa é a legitimidade da ação.
Defender a floresta é proteger emprego, cultura e água — não um custo, mas uma estratégia nacional.
Com prazos, métricas e governança aberta podemos transformar intenção em entrega. A floresta em pé é nosso melhor investimento. 🌱

